Existe livre arbítrio e determinismo.
O nosso livre arbítrio é limitado. Fazemos as escolhas possíveis dentro de uma ordem cósmica que orienta, de forma global, o curso do universo.
Existe um certo determinismo em sentido global. Não nas pequenas escolhas, essas estão ao nosso alcance.
No entanto, as opções que tomamos, em liberdade total, pensamos nós, na verdade não o são porque, no fundo, temos de tomar essas decisões para que a "grande vontade do universo" se concretize.
Podemos dizer que é uma ilusão julgarmos que tomamos as nossas decisões em liberdade plena. Isso nunca acontece porque estamos dentro de um grande sistema, do qual não podemos sair.
Não se trata de um determinismo rígido e absoluto em que todos os eventos estão pré-determinados.
Antes falamos de um determinismo teleológico em que o livre-arbítrio existe, embora guiado por um fim geral, o que implica a impossibilidade de um livre arbítrio total e absoluto.
O determinismo, como o entendemos, está intimamente ligado ao pathos grego. Vivemos como que aprisionados num mundo onde temos de seguir vivendo e tomando decisões, que consideramos fruto da nossa liberdade, mas que, na verdade, só o são em parte e numa perspectiva de curto horizonte. Porque na visão global do universo, não passam de necessidades e obrigações que somos impelidos a "decidir" para que um bem maior se concretize.
Embora esta realidade possa ter uma dimensão fatídica, esta não é a perspectiva adequada porque tal pode limitar o entusiasmo de viver e não corresponde à essência da Natureza.
A nossa liberdade existe mas não se pode absolutizar nem menosprezar. Embora não exista no modo absoluto, somos chamados a usá-la naquilo que somos solicitados a decidir, sabendo, de antemão, que tal está ao abrigo de um plano cósmico global. E isto também nos deve descansar e de certa forma conformar, na medida em que tudo o que acontece de bom e de mau fruto das nossas decisões, não se limita ao nosso horizonte de percepção seja de abrangência factual ou temporal.
O que decidimos, tínhamos de decidir, e naquele sentido, para que a ordem global se concretize.
Das nossas decisões advém, muitas vezes, sacrifícios e sofrimentos.
Mais tarde, não percebemos a razão de termos tomado tais decisões e até nos arrependemos.
Carregar esse sentimento de culpa ou arrependimento não condiz com a ordem natural do universo.
Decidimos situados no tempo, com os dados que tínhamos e na melhor convicção e intenção.
As coisas tinham de acontecer assim, por algum motivo, que podemos não vislumbrar, mas que a ordem cósmica determinou.
Dentro deste condicionalismo, que tem o seu lado perverso mas também reconfortante, o homem sensato sabe viver e vai tomando as decisões que se impõe com convicção mas na certeza de que são informadas pelo sentido que a ordem superior faz seguir, mesmo que só mais tarde, ou mesmo nunca, o venha a conhecer.
Manuel Ferreira
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